quinta-feira, outubro 01, 2009

Mangá(?) do Labirinto

Semana passada eu fiz uma vaigem rápida à Argentina, junto com a família. A gente estava planejando uma viagem mais longa (coisa de duas semanas) e pra mais longe (Europa, provavelmente), mas aí a burocracia e alguns atrasos complicaram bastante a coisa e resolvemos mudar de rumo. Eu adorei à viagem e depois vou fazer posts contando como foi (e dessa vez escrevo mesmo, tô empolgada com as fotos, com o passeio, com tudo), mas pra esquentar os tamborins vou falar um pouquinho de um dos achados da minha viagem: um quadrinho continuação do Labirinto, um dos filmes dos anos 80 mais emblemáticos, cria indireta do Monthy Python e do autor dos Muppets, e um dos meus favoritos.

Estava eu andando pela rua Florida no meu penúltimo dia de estadia na capital argentina quando me deparo com o quadrinho na banca. Estava chovendo bem no dia, o jornaleiro tinha colocado um plástico grosso pra proteger as revistinhas, então fiquei lá um tempão meio agachada olhando até ter certeza do título: "Return to Labyrinth". Fiquei bem desconfiada, já que uma tentativa de continuação de um filme tão bacana tinha grande chance de dar merda, mas como tava baratinho (14 pesos cada, divida por 2 pra ter o preço em reais), a curiosidade falou mais alto. Arrematei dois volumes, mesmo eles estando um pouco amassados (e não tinha mais, devia ser resto do resto) e mesmo sabendo que havia um terceiro volume que o jornaleiro não tinha. Qualquer coisa eu dava um jeito, internet taí pra isso.

Dito tudo isso, eu mostro aqui a capa do mangá:

Lindona, eu achei. Mesmo não babando taaaaanto por esse tipo de traço quanto há alguns anos atrás, ficou bem caprichada. Se o miolo seguisse o traço, ótimo. Mas aí notei os créditos: desenhista de capa era um, desenhista do recheio era outro (americano, pelo nome). Luzinha de alerta acendeu aqui.

Não deu outra, olha a qualidade do miolo do mangá:


Sim, é essa tranqueira. Do lado desse traço, até o mangá da Luluzinha (que parece feito por fanzineiro) fica bonito. Fora que o nível do traço é irregular, vai do razoável até o muito ruim: vai ver o tal Chries Lie estava com o prazo apertado, aí quando ele ia fazer cocô ou sair pra lanchar colocava o irmão mais novo pra fazer arte final no lugar dele... O Jareth, coitado, uma hora fica parecendo o Dark Schneider magricelo e de batom, noutras fica numa vibe Sephirot meets Steve Tyler. Pavoroso.

Mas e o roteiro, presta pelo menos? Resuminho: a história se passa alguns anos depois do filme original: Sarah cresceu e virou professora, e o seu irmão Toby está enfrentando problemas típicos de adolescente (com aquele exagero típico desse tipo de história). E dessa vez é ele que vai ser atraído pra dentro do Labirinto por Jareth. Que dessa vez não parece ser o senhor absoluto daquele mundo como a gente pensava: algumas intrigas políticas estão em jogo, há gente de olho no controle do Labirinto por alguma razão, e novos personagens misteriosos aparecem.

O início é bem banalzinho (Toby adolescente com problemas), e pra piorar foi bem mal trabalhado. Ficou óbvio que queriam que ele emulasse a Sarah do filme, aí deram uma forçadinha de barra e botaram a mãe brigando com ele igualzinho. Também colocarem ele numa peça de teatro, dã. A impressão que eu tive é que correram com essa parte pra chegar logo à ação.

Quando ele entra no Labirinto alguma coisa melhora, mas a história é irregular como o traço. Quando ela se mantém fiel às idéias do filme original ela até funciona bem. Clima bizarrinho, personagens estranhos, e contos de fadas citados ou virados do avesso (alguns bem pouco conhecidos como o dos duendes que faziam sapatos à noite para um casal de velhinhos vender de dia)...

Mas quando se afasta disso, aí a história derrapa feio. Fica um gosto forte de deja vu, de "eu já li isso antes e muito melhor escrito", tudo soa como aqueles RPGs genéricos de videogame que você compra/baixa e fica jogando na falta de algo melhor pra fazer, mas depois que você zera, se esquece da existência dele rapidinho (ou nem chega a zerar, perde a empolgação antes).

Só pra sentirem o clima: quem está doidinho pra se apossar do Labirinto é uma rainha de um reino/dimensão/país de água, que tem poderes baseados nesse elemento, e duas filhas meio artistas de circo que também tem poderes baseados em água. E fica claro que ela e Jareth já tiveram uma quedinha um pelo outro. E que a força de vontade do Jareth era fortíssima, e era ela que mantinha o Labirinto, e quem controlasse o Labirinto também teria aquele poder.

Rayearth feelings? Sim, eu também senti. Não é totalmente aleatório porque no filme há um "embate" entre a vontade da Sarah e a do Jareth, mas como eu já disse, do jeito que colocaram ficou com jeitão de um desses RPGs que saem por quilo.

Só faço uma ressalva: como eu disse lá em cima, eu não li a última parte da história porque não achei o último volume pra comprar. Pra ser sincera eu duvido que o clima geral da história mudassem, mas pode ser que ele tenha algumas surpresas que ao menos deixassem uma sensação melhor.

Enfim, a impressão que eu tive é que a história tinha até uma chance de funcionar (ainda que não ficasse no nível da concepção original), mas que foi desenvolvida de forma beeeem preguiçosa.

E sabe o que é pior? No final do segundo volume tem umas pin-ups de outros desenhistas, algumas amostras:




Podiam ter chamado qualquer um deles para desenhadr o quadrinho...

2 comentários:

keila disse...

eu não achei o traço ruim,ele apenas não comum,eu achei estilizado

Gabriela Martins disse...

Keila, tem uma diferença enorme de traço estilizado para traço ruim. E vejo muito alguém dizer que desenho num "estilo X" ou "tem o traço Y" pra justificar falta de técnica.

É complicado explicar com poucas palavras, mas vou tentar: você percebe onde está a diferença dependendo da "intenção" do desenhista. Usando o scan de página que eu postei de exemplo:

- o juiz está até bom: os tons de P&B se casam bem, o rosto é uma caricatura, e o cabelo e a sobrancelha tem um tratamento bom de maciez.

- Toby: médio. O cabelo dele é duro e espetado, e os olhos lembram mais o Ben 13, por exemplo, do que um mangá

- Fada: péssima, cabelo super duro, desenhado de qualquer jeito (não me parece que a intenção foi fazer um cabelo estilizado)

Somando tudo, o conjunto não é bom, é irregular, os elementos não se encaixam. O melhor que eu posso dizer é que o desenhista parece ter ficado no meio do caminho entre um mangá e um "cartoon com traços de mangá".

Não que o traço de um Ben 13 seja ruim, do contrário, mas que se mantivesse fiel a ele e não tentasse "mangalizar" o resto. Pra mim, foi falta de habilidade mesmo.