domingo, maio 27, 2007

De boas intenções o inferno está cheio

Numa de suas estadias lá em casa, a minha irmã me avisou que a madrinha dela (que é minha tia) tinha perdido o meu email e que por isso não estava mais me mandando notícias de concursos. Que se eu quisesse continuar recebendo, era só eu reenviar o meu email para ela.

Ainda bem que a minha tia perdeu o meu email, se não a situação poderia terminar num tremendo mal-estar. Porque eu não aguentava mais a cada vez que ela me telefonava, dizendo que saiu edital para concurso no lugar X, que a escola Y tinha aberto turmas preparatórias para essa mesma prova, que eu sou muito inteligente e posso passar sem muito esforço e que seu eu passasse eu poderia ter a felicidade de trabalhar apenas meio horário e estudar no resto do tempo e poderia comprar um carro pra mim.

Pode até ser maldade da minha parte, mas sempre achei essa "bondade" toda dela uma tremenda pressão para eu conseguir um emprego e me arrumar na vida, provavelmente porque acham que já "passei da hora de depender de pai e mãe" por já ser formada. Até o que fazer com o suposto salário que eu ganharia ela dá pitaco (claaaaro, porque hoje em dia toda pessoa que se preze precisa de um carro na garagem). Explicando pra quem ainda não sabe: estudei Comunicação Social, com habilitação em Publicidade, mas na metade do curso já estava empurrando com a barriga, só esperando que lá pra frente fosse melhorar. Melhorou, mas de uma forma diferente do que eu esperava:fiz umas matérias de Belas Artes, me apaixonei pelo curso e só não larguei Comunicação porque faltava apenas um ano para eu me formar (e porque tinha pai e mãe). E agora estou fazendo Belas Artes, e acredito que finalmente eu encontrei o que gosto de fazer (até brinco que se não der certo a minha única opção é o suicídio, porque aí acabaram as minhas idéias).

A família inteira já deve ter me ouvido praguejar e falar mal do curso anterior, já deve ter ouvido eu reclamar sei lá quantas vezes que o mercado de publicidade é fechado, que rola muita peixada e o escambau, que eu não fiz amizades e contatos justamente por não gostar... aí acham que eu tenho um grande problema por "não conseguir trabalho", então a solução mágica seria eu fazer um concurso público. Lindo isso!

Fico muito irritada quando falam que eu não consigo emprego nenhum por pura preguiça ou comodismo (ignorando que eu já tentei várias vezes, já fiz portfólio, já fui em entrevistas e até em programa trainee eu me inscrevi). Pior ainda é ouvir o curso que eu faço agora (e que eu adoro) sendo tratado como "segunda opção" ou "complementar" ou mesmo "hobby" (aliás, fico bem irritada quando alguém fala que eu poderei conciliar uma profissão com a outra. Quem disse que eu quero isso?), e que por isso mesmo não precisa de tanta dedicação e empenho como o primeiro curso que eu fiz (razão pela qual um emprego entediante não seria ruim, e fazer um cursinho-pra-passar-em-concursos não seria nenhum esforço). Resumindo: me tratam como a "doida que tinha tudo pra ter um empregão nas mãos mas resolveu mexer com essa coisa de 'arte', que não enche barriga".

É por essas e outras razões (a outra foram mudanças na minha aparência, no meu estilo de vida e nos meus gostos) que minha preguiça de ir em reuniões familiares aumentou bastante. Meus dois últimos namorados eu nem levei para apreciação (melhor dizer "interrogatório") da parentada: em uma iam meter o pau por ser carioca; no outro por ser muito mais novo.

Podem até falar que só fazem isso para o meu bem, mas acredito naquele ditado do título do post. E na próxima vez que alguém me mandar algum edital por email, vou perguntar porque a própria pessoa não presta o tal concurso ou não manda os seus filhos e conjuge pro cursinho preparatório.